O pastor e auxiliar de pedreiro Vagner Gonzaga dos Santos, de 35 anos, sempre foi um sonhador. Nasceu em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, e com 7 anos se mudou do Rio de Janeiro para a Bahia com os pais. Porém, seu desejo era de retornar à cidade natal. Aos 17 anos, largou tudo no nordeste e voltou a viver no Rio, onde conheceu sua esposa e com quem tem três filhos. Em 2000, o rapaz se converteu à religião evangélica e virou pastor.

 

Na tentativa de sair do aluguel, Vagner soube que um ex-morador da ocupação estava vendendo o terreno onde morava. Na comunidade, é comum a venda de casas e lotes a baixo custo devido à situação de ilegalidade. O pastor comprou dois terrenos: deu uma televisão de 20 polegadas e R$ 250,00 por um, e pagou R$ 160,00 no outro ao lado. Hoje, ele tem no local sua casa, anexa à igreja evangélica Casa de Oração, e um barraco que usa como depósito para as bebidas e alimentos que vende na rodovia. Ao lado, fica um pequeno curral com vacas, galinhas e patos criados para venda — prática comum entre a população local.

Limpeza do terreno

Limpeza do terreno

Todo fim de semana, Jorge visita seu terreno para mantê-lo limpo e evitar que o mato cresça

Escombros do antigo barraco

Escombros do antigo barraco

Da época em que Jorge morava no terreno, restou apenas uma espécie de cozinha, onde ele utiliza o forno à lenha para assar batatas

Singelo pomar

Singelo pomar

O lote de Jorge não fica ocioso. Ele tem plantado pés de laranja, bananeiras e cana-de-açúcar para aproveitar o que a terra pode produzir. Tudo para consumo próprio

Futura quitinete

Futura quitinete

Nos fundos do lote, Jorge aponta o local em que será construída sua quitinete. A obra está prevista para começar ainda neste ano

Contato com a terra

Contato com a terra

Quieto e sozinho, Jorge se mantém reservado em seu próprio quintal. Sua maior alegria é poder contemplar o pequeno terreno

Uma história em construção

              orge Correia Pires passava de ônibus pela antiga estrada Rio São Paulo

              (BR-465) quando viu uma movimentação à beira da rodovia, no lugar conhecido como “quilômetro 32”. Curioso, o rodoviário aposentado de 73 anos desceu imediatamente e foi ao local para saber do que se tratava a aglomeração. Logo, informaram-o que acontecia ali uma ocupação de terras. Separado de sua esposa há alguns anos, deixou a casa em que morava para a família e decidiu construir uma nova vida naquela favela que surgia. Nas lembranças, o idoso estima que cerca de mil pessoas montaram barracos de madeira e lona terreno adentro. Não demorou muito até que os moradores fossem pegos de surpresa por autoridades que determinaram a saída de todos.

 

— Eram retroescavadeiras, polícia, carros de bombeiro, aquela porcariada toda, dizendo: ‘Sai, sai todo mundo, que a máquina vai entrar!’. Aí todo mundo saiu e a máquina entrou e passou por cima daquilo tudo. Aí foi aquele tumulto. Ninguém sabia pra onde ir — relembra Seu Jorge.

 

As terras haviam sido recém compradas pelo empresário Joel Pacheco Vieira, em 2002. Assim que soube da ocupação, o dono acionou a Justiça para remover as famílias do local. A propriedade, que fica ao lado do rio Guandu-Mirim, soma pouco mais de 40 alqueires, um valor exato de 1.126.800 metros quadrados.

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Eles acham que eu só quero me dar bem, ser bom só pra mim. ‘Ah, pastor 171’, ‘pastor trambiqueiro’, ‘quer ficar rico'"

 COMUNIDADE 

 DILMA ROUSSEFF 

 Uma história de luta por moradia 

Foi apenas erguer uma placa com o nome da primeira mulher presidente do Brasil para um lugar esquecido chamar a atenção. A Comunidade Dilma Rousseff, localizada às margens da rodovia BR-465, em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, ficou conhecida nos jornais a partir de 2011 pela homenagem à presidenta, quando um pastor e morador da favela decidiu tornar pública a situação precária em que viviam. A figura materna de Dilma levantou esperança de regularizar suas casas, construídas em terras ocupadas. Sem água, energia elétrica e saneamento adequados, a população local ainda aguarda iniciativas do governo para garantir o direito à moradia digna.

 A COMUNIDADE 

Assim como Jorge, algumas famílias insistiram em ficar no lugar. No entanto, aceitaram um acordo de se deslocarem da propriedade de Joel para ocupar a faixa que pertence ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), órgão responsável por administrar as rodovias federais.

 

— Um agricultor, um tal de Raimundo, que também tava nas terras, propôs que a gente fosse pra um espaço marcado com uma cerca de arame, com uns 15 metro, que vinha de lá da margem da rodovia até aqui. O DNIT aceitou e a gente construiu nossos barraco de novo — explica Jorge.

 

Surgia ali a comunidade que, nove anos depois, ganharia os olhos da imprensa nacional e internacional.

 

Confira as reportagens já publicadas sobre a Comunidade Dilma Rousseff:

 

O GLOBO

“Dilma vira nome de favela que não tem redes de esgoto, água, energia e coleta de lixo”

 

JORNAL EXTRA

“Favela no Rio ganha nome da presidente Dilma Rousseff”

“Favela ‘Dilma Rousseff’ lamenta falta de atenção da presidente”

“Um ano após batizarem comunidade de Dilma Rousseff, em Campo Grande, moradores lamentam tentativa fracassada de obter melhorias”

 

ESTADÃO

“À espera de água e luz, moradores dão nome de Dilma Rousseff à favela do Rio”

 

ISTO É

“A Favela Dilma”

 

THE GUARDIAN

“Dilma Rousseff: a favela with a presidential name”

Os três primeiros anos foram estáveis na comunidade. Nesse período, as pessoas que participaram do início da ocupação permaneceram quase as mesmas. Em 2005, um temporal inundou a área. Muitas famílias foram embora e nunca mais voltaram.

 

Assim como outros poucos moradores, o aposentado Jorge reconstruiu sua casa, mas um novo problema apareceu quando o DNIT o alertou sobre o risco de morar embaixo de cabos de alta tensão. Ele ainda continuou vivendo naquela situação até 2010, quando decidiu derrubar o barraco.

 

Jorge se mudou para Santíssimo, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde mora na casa de uma sobrinha. O aposentado, no entanto, pretende começar a construir uma quitinete a partir de junho deste ano, nos fundos do lugar em que morava na favela, porém longe dos fios de alta tensão.

 

O terreno de Jorge foi cercado com arame farpado. Ele plantou algumas árvores frutíferas e outras plantas que exibe com orgulho. Todo fim de semana o aposentado limpa o quintal, assa batata no forno à lenha e mói cana no engenho. De poucas palavras, não se relaciona com todos os moradores — a maioria ele nem conhece. Seu Jorge é o único que ainda mantém vínculo com a comunidade desde a ocupação de 2002.

O terreno do antigo morador

Falta de água marca início

da comunidade

O acesso à terra, ainda sem legalização, não foi suficiente para garantir o direito às condições mínimas de moradia. Ao lado do sonho de uma casa própria, a população local ainda convive com uma realidade às margens da urbanização. Durante os primeiros anos após a ocupação, por exemplo, não havia água canalizada nas casas. O único meio de consegui-la era enchendo baldes em uma adutora da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) próxima à comunidade. O aposentado Jorge relembra a dificuldade que enfrentavam.

 

— A gente trazia água de longe. Debaixo da ponte tem uma água, que é água de retorno, e que cai sempre. Ela cai dia e noite. A gente apanhava baldes e ia trazendo pela pista. Todo mundo apanhava. Aí depois os caminhão-pipa começaram a encostar ali e não deixava a gente apanhar. Eles pegavam para vender. Aí a Cedae foi ali e cortou — conta o idoso.

 

A falta de água forçou os moradores a se unirem para captá-la de maneira ilegal em uma adutora em frente à favela. Foi então que Jorge e alguns vizinhos fizeram um “gato” na tubulação em uma noite para não serem vistos. Entre eles, estava o recém morador Vagner Gonzaga dos Santos, o responsável por articular a canalização da água para toda a comunidade.

Associação de moradores

não sai do papel

— Eles acham que eu só quero me dar bem, ser bom só pra mim. ‘Ah, pastor 171’, ‘pastor trambiqueiro’, ‘quer ficar rico’. E agora? Recorrer a quem? À imprensa? Aí você vê a situação que ela coloca a gente: ‘Uma ideia que não deu certo’, aí a outra revista vem e coloca ‘Favela Dilma: o nome da presidenta vira favela no Rio'. Aí ela vai olhar com que olhos? Na verdade mesmo, ela tem que aceitar como favela. A gente não tem recurso. A gente realmente é uma 

"

Vagner Gonzaga dos Santos, 35 anos, pastor da igreja evangélica Casa de Oração e idealizador do nome

da comunidade

situação jogada na sarjeta — desabafa o pastor.

 

A moradora Rosana Silva de Sousa, de 37 anos, participou de reuniões promovidas por Vagner a respeito da Associação de Moradores Dilma Rousseff. Frustrada por não ver os resultados propostos pelo pastor, a vendedora ambulante reclama da falta de avanço no caso.

 

— Pagamos uma taxa, cada morador aqui deu dinheiro. O Vagner falou que ia legalizar e até agora a gente  esperando. Trouxe advogado, falou que ia ter escola, ia ter isso, ia ter aquilo, negócio de futebol pras criança. A gente queria uma melhoria, ? Pagar nossas taxa certinho, ter uma vida melhor. Quem não quer? — ressalta Rosana.

 

A vendedora ambulante admite que sem a associação de moradores o sonho de uma vida melhor torna-se mais distante.

 

— Dependemos da associação, porque é através dela que temos melhorias, né? Como é que vamo conseguir isso? Precisa ter conhecimento, coisa que a gente não tem, a gente não entende direito. Através da associação já fica mais fácil — observa ela, reafirmando seu desejo — Quem não quer ter uma vida boa? Não precisa ser rico, mas uma vida certinha, civilizada.

 

A professora de Direito Público da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Tatiana Cotta confirma a importância de fundar uma associação de moradores na comunidade.

 

— A estratégia nunca é jurídica, mas política. Para que haja real possibilidade das pessoas ficarem na terra, elas precisam estar muito organizadas politicamente. Eles devem constituir associação de moradores para começarem a tentar, em bloco, resistir. E a resistência nunca pode ser individual, por isso que eles se chamam 'comunidade' — orienta Tatiana.

 

Ela ainda critica a postura assumida pela Prefeitura do Rio de Janeiro desde 2010 para desapropriar casas na cidade.

 

— A maneira como a Prefeitura age atualmente é muito triste. Ela não deixa, como antes, o morador isolado, mas no meio de escombros. Quando a Prefeitura demole casas dentro de uma comunidade, ela não retira o entulho. Deixa os escombros lá para dificultar a permanência do morador que insistiu em ficar, porque junta bicho, lixo. É uma forma simbólica de ir minando a comunidade — lamenta a professora.

Casa do pastor Vagner na Comunidade Dilma Rousseff; igreja fica anexa à residência

Desde que chegou à comunidade, Vagner se engajou na busca por melhorias estruturais para todos os moradores. Além da questão da falta de água, o pastor também procurou legalizar a energia elétrica, que ainda hoje chega às casas por meio de “gatos”.

 

— Quando eu cheguei aqui, já tinha um bico de água. Eu só agitei e coloquei canalização pra todo mundo. Não temos luz direito e não adianta fazer requerimento na Prefeitura — reclama Vagner.

 

Os requerimentos do pastor não são atendidos devido à questão da irregularidade das casas. A fim de levar o pedido adiante e com mais força, Vagner decidiu criar uma associação de moradores. Para isso, precisou dar um nome de peso à favela. E a aposta foi certeira: Comunidade Dilma Rousseff. Em pouco tempo, a imprensa estampou jornais e revistas com o drama daquele local.

 

— Com uma associação de moradores, todo mundo iria sair ganhando. Se tiver legalização, organização, fiscalização, as coisa correta, ia ser bom pra todo mundo. As pessoas passaram a me procurar pra poder adquirir um pedaço de terra. Comecei a fazer um cadastro e pedia R$ 100 pra ajudar a gente pra tentar registrar a associação — detalha o pastor — Dei o nome de Dilma Rousseff pra comunidade como uma forma de homenagear nossa presidenta e chamar a atenção. Coloquei uma placa aqui com o nome da presidenta e repercutiu nos jornais — conta ele.

 

A Associação de Moradores Dilma Rousseff nunca saiu do papel. O pastor conta que empregou mais de R$ 5 mil próprios para registrá-la, fora o dinheiro arrecadado com moradores. No entanto, alega ter sido enganado por dois advogados que prometeram formalizá-la. Aos poucos, as pessoas deixaram de acreditar e financiar o projeto de Vagner.

Associação de Moradores Dilma Rousseff: nome registrado apenas em placa pregada à parede da casa de Vagner

Localização da Comunidade Dilma Rousseff. Aproveite e explore a área com o Street View, arrastando o boneco laranja para dentro da rodovia, onde o ponto está marcado

"Comunidade Dilma Rousseff - Uma luta por moradia" é uma reportagem especial para a disciplina Projetos Profissionais em Jornalismo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Produção: Alerrandre Barros, Andreza Almeida e Gian Cornachini. Copyleft 2014. O conteúdo deste site está liberado para repodução, desde que a fonte seja mantida.